Dar Voz

Quero É Viver: uma experiência imersiva sobre a alegria, a inocência e a urgência de sentir

Há momentos em que viver parece acontecer de forma espontânea.

Sem cálculo. Sem ponderação. Sem a necessidade de compreender tudo antes de avançar.

E talvez seja precisamente aí que encontramos uma das formas mais puras de alegria.

“Quero é viver” é uma nova experiência imersiva de Dar Voz, um exercício sonoro sobre a passagem da inocência para a consciência, sobre aquilo que perdemos quando começamos a pensar demasiado e sobre a urgência de viver quando percebemos que o tempo é escasso.

Quando a ponderação interrompe a vida

A alegria de viver pode desaparecer num instante.

Basta interromper o impulso.

Começamos a ponderar. A questionar. A antecipar consequências. A imaginar o olhar dos outros.

E, pouco a pouco, a espontaneidade desaparece.

A expressão fica suspensa. O corpo deixa de avançar. A vontade perde intensidade.

É neste momento que surge o som da estagnação.

Em Quero É Viver, esse estado é construído através de pequenas gotas de água e do ruído artificial das luzes fluorescentes. Sons repetitivos, quase banais, que criam uma sensação de espera e imobilidade.

Como se alguma coisa tivesse ficado presa.

Como se viver tivesse sido substituído por observar a própria vida.

A inocência de ainda não saber

Depois, surge uma nova vida.

Ingénua. Curiosa. Inquieta.

Uma vida que procura, que sorri, que experimenta. Uma vida que ainda não sabe o que pode correr mal.

E talvez essa ignorância tenha qualquer coisa de precioso.

Porque descobrir também significa avançar sem garantias.

A música de fundo desta experiência é uma caixa de música, associada à infância e à inocência. A sua sonoridade delicada cria um contraste com os momentos de estagnação e prepara o espaço para aquilo que ainda está por descobrir.

Antes de sabermos demasiado, existe uma liberdade particular.

A liberdade de fazer.

De tentar.

De cantar.

Cantar alto sem medo do olhar dos outros

Há uma imagem central nesta experiência:

cantar ópera num pátio vazio, sem desconfiar que as freiras estão a ouvir.

Cantar sem pensar no julgamento.

Cantar porque sim.

Cantar alto para o mais íntimo de nós.

É um gesto aparentemente simples, mas contém uma ideia essencial: a espontaneidade desaparece quando começamos a viver demasiado conscientes do olhar exterior.

Enquanto ninguém nos observa, somos capazes de fazer coisas que talvez abandonemos quando percebemos que existem testemunhas.

E é nesse confronto entre liberdade e julgamento que a inocência começa a desaparecer.

A realidade também nos transforma

A realidade acaba por chegar.

E com ela chegam as perdas, as desilusões e a consciência de que nem tudo corresponde àquilo que imaginávamos.

A inocência vai sendo retirada pouco a pouco.

Não necessariamente porque deixamos de querer viver, mas porque passamos a conhecer o peso das consequências.

Já sabemos que podemos perder.

Já sabemos que algumas escolhas deixam marcas.

Já sabemos que determinadas pessoas partem.

E esse conhecimento altera a forma como olhamos para o tempo.

Quando percebemos que o tempo é escasso

Existe um momento em que a consciência da finitude deixa de ser uma ideia abstrata.

Percebemos que o tempo é limitado.

E então surge uma urgência.

Sentir tudo.

Sentir com intensidade.

Experimentar.

Procurar.

Questionar.

Viver antes que a possibilidade de viver aquilo que desejamos desapareça.

Esta urgência não nasce apenas do medo da morte. Nasce também da vontade de compreender o que fazemos aqui.

O que nos move?

O que procuramos?

O que existe para além daquilo que já conhecemos?

Uma procura pela essência

Quero É Viver termina nesse movimento de procura.

Uma procura quase desenfreada pela descoberta da essência, do propósito e daquilo que poderá existir para além da superfície.

Não há uma resposta definitiva.

E talvez não deva existir.

A experiência deixa antes uma pergunta:

Se sabemos que o tempo é escasso, porque esperamos tanto para começar a viver?

Talvez viver implique aceitar alguma ignorância.

Aceitar que não sabemos.

Aceitar que podemos ser julgados.

Aceitar que podemos perder.

E, apesar de tudo isso, continuar a cantar.

A voz como espaço de experiência

Em Dar Voz, a voz não serve apenas para transmitir palavras.

Serve para criar atmosfera, ritmo, tensão e silêncio.

Em Quero É Viver, essa dimensão torna-se particularmente importante. A experiência cruza narração, música e paisagem sonora para criar diferentes estados interiores: a inocência, a estagnação, a espontaneidade, o confronto e a urgência.

A intervenção de “O mio babbino caro”, de Puccini, introduz precisamente essa dimensão emocional e teatral. A ópera surge como um gesto de expressão plena, quase excessiva, em contraste com o silêncio e a contenção que aparecem noutros momentos.

A voz pode ser pensamento.

Pode ser memória.

Pode ser desejo.

E pode ser, simplesmente, vontade de viver.

Ouve “Quero É Viver”

Esta nova experiência imersiva integra o universo de Dar Voz, projeto de criação sonora que explora a relação entre voz, texto, música, silêncio e imaginação.

Para ouvir, coloca os auscultadores.

Fecha os olhos.

E deixa os sons fazerem o resto.

Quero é viver.